A doutrina de Marco Rubio
O secretário de Estado que quer conter a China e mudar o Brasil
Marco Rubio vem de uma família cubana emigrada aos EUA na época da Revolução. Ele cresceu na Florida, seus pais tinham empregos modestos, mas que foram suficientes para comprar uma casa e financiar uma boa educação para o filho. Era a época do sonho americano.
Hoje, um cenário tal qual o dos pais de Rubio não existe. Não é mais possível, nos EUA, financiar uma casa com um emprego modesto como garçom ou bartender num estabelecimento comercial comum.
A atividade política inteira de Rubio, antes de atingir o secretariado de Estado, poderia ser resumida da seguinte forma: restaurar o sonho americano. Sua imagem e branding como um homem de sangue estrangeiro que chega na cena política com uma visão de fora, que diz aos americanos o quão grandiosa é a nação deles e como, hoje, essa grandiosidade está em risco devido a más políticas, rendeu-lhe muitos votos.
Até hoje, mas sob formas diferentes, é isso que norteia a política de Rubio: ele é alguém que, por seu contexto de vida e suas qualidades adquiridas, vê coisas que as elites tradicionais não têm olhos para ver nem ouvidos para ouvir.
Antes de Trump, a imagem de Rubio como restaurador do sonho americano e senador do Partido Republicano era seguir o modelo de Ronald Reagan. Antes de Trump, o que o Partido Republicano queria era um político do perfil de Reagan, um livre-mercadista dotado da crença de que o comércio globalizado traria a paz globalizada.
Quando Trump chegou, muita coisa já havia mudado, o democrata Obama havia passado por dois mandatos seguidos, os Estados Unidos não pareciam estar tão melhores e, se antes a opinião pública do governo americano já não estava boa, agora a China vislumbrava ser uma substituta das parcerias comerciais dos EUA com outros países.
A entrada da China na OMC, na presidência de Clinton, abriu o comércio do país para o mundo. Um crescimento econômico sem precedentes tomou conta. A liberalização da economia chinesa, todavia, não coincidiu com uma liberação de suas instituições políticas, o país permanecia sendo autoritário, mas agora com muito mais dinheiro.
A ingenuidade de que liberdades comerciais gerariam liberdades políticas contaminou todos na época. Milton Friedman chegou a dizer, após o massacre da Praça da Paz Celestial em 1989, época em que a China já começava a fazer reformas liberalizantes, que aquele evento era "o primeiro de vários", isto é, a prosperidade comercial do país faria com que os chineses buscassem liberdades políticas por meio do protesto, e o governo teria de dar respostas cada vez mais autoritárias e se isolar internacionalmente. Isso não ocorreu. Se algo pode ser chamado de "dogma neoliberal", é este: liberdades econômicas geram liberdades políticas. A China provou que isto é falso.
O poder econômico dado ao Partido Comunista Chinês só fez com que o país se tornasse geopoliticamente mais forte e, assim, desafiasse o poder americano e ocidental. Para Marco Rubio, a China não é somente mais um país que quer cooperar na comunidade internacional, mas um país cujo governo possui um projeto de dominação global.
Com isso, as preocupações de Rubio saíram de questões internas para questões de política externa. A crença ingênua de que o comércio por si só traria a paz custou muito aos americanos; o livre comércio internacional, sem uma conjunção de valores, provou-se como espaço permissivo a espoliação e cinismo.
Destarte, contra o liberalismo na política externa, Marco Rubio inaugura um "novo realismo americano", cujos princípios poderiam ser traçados em seu livro Decades of Decadence.
A China, para o atual secretário de Estado, representa o maior desafio deste século. Para lidar com ela, será também necessário lidar com a Rússia; Rubio considera a China um perigo maior e mais urgente e crê que é dever de seus aliados, os europeus, lidar com os russos. A Europa, portanto, precisa e deve se rearmar, fazendo jus à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e, para isso, contará com apoio dos EUA.
Com isso, os EUA poderão focar em suas prioridades. Primeiro, é necessário isolar a China: deve-se garantir alinhamento americano por parte dos países do Oceano Pacífico, segundo, é necessário reafirmar alianças com países estratégicos, estas que, segundo Rubio, serão alianças "mais importantes do que nunca": Índia, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália, Brasil e outros.
Já é possível ver hoje que os Estados Unidos buscam reforçar suas relações com todos esses países. Já assegurou uma aliança com o Japão e sua nova primeira-ministra, com a Coreia do Sul, com a Índia também—além de tê-la feito parar de comercializar mercadorias estratégicas com a Rússia—, a respeito de Taiwan dispensam-se comentários; por fim, vê-se hoje ações americanas direcionadas à América Latina, em especial a Venezuela e Colômbia, bem como interações com o Brasil.
Todavia, as atuais movimentações na América Latina fazem parte também de uma movimentação maior, a de cessar o influxo de drogas para os Estados Unidos. Deve-se fazer isso combatendo o narcotráfico, que também possui ramificações políticas e auxilia no financiamento de regimes antiamericanos na América Latina, a exemplo do regime chavista, do Foro de São Paulo, e demais guerrilhas revolucionárias. Tais países, por terem alinhamento antiamericano, muito recorreram à China e Rússia, de modo que destituir esses regimes é também isolar ainda mais os chineses, é isso que explica o antagonismo de Rubio com Lula e o governo petista, além de seu background cubano que lhe rende um ódio pessoal a tudo o que se relaciona com Fidel Castro.
Com relação ao Brasil, portanto, o secretário de Estado não se contentaria com nada além de um Brasil cujo governo esteja distante da China e da Rússia e próximo dos EUA. Eles desejam substituir as parcerias comerciais do Brasil com a China por parcerias comerciais americanas e europeias, querem ver o Brasil longe do BRICS e combater o narcotráfico na região. Com efeito, só se chegará a tal acordo caso um dos lados, Brasil ou EUA, resolva ceder, e, a depender do quanto o PT está mergulhado em assuntos contra os interesses do governo americano, será difícil ceder sem comprometer o próprio projeto petista de poder.
O Brasil, portanto, está num impasse, pois tem na chefia do Estado um partido ideologicamente contra a maior potência do mundo, ela deseja o Brasil para sua zona de influência. Caso o impasse se mantenha, o Brasil tende a enfrentar crescente isolamento econômico (mais do que já se isola!) e diplomático, podendo chegar a pontos asfixiantes.
Marco Rubio e os Estados Unidos só se contentarão com um Brasil aliado.